terça-feira, fevereiro 15, 2005

Até sempre, Maria

Faz, hoje, dez anos que a Maria morreu. É impossível esquecer. O que mais a marcava era o seu sorriso, tão puro, doce, tão alegre. A Maria tinha uma energia inesgotável, tinha apenas dois anos a mais que eu e era a minha melhor amiga.
Quando dormíamos na casa duma da outra, passávamos as noites a fazer planos. A nossa vida estava mais que organizada. Seríamos grandes pediatras, casaríamos com dois irmãos ingleses e moraríamos, todos juntos, numa fabulosa quinta. Teríamos quatro filhos e seríamos muito felizes. Nessas noites prometíamos ser as melhores amigas do mundo. E essa, essa foi a única promessa comprida.
Eu sempre a invejei. Ela era bonita, das melhores alunas da escola e tinha todos os rapazes atrás dela. Os pais da Maria tinham ido para a Suiça pouco antes dela atingir a maioridade. Até nisso ela tinha sorte. A Maria era considerada perfeita. E, embora fosse a minha melhor amiga, detestava quando os meus pais me comparavam com ela.
Depressa a Maria se tornou maior de idade e como prenda tivera uma casa em Leiria.
Dois dias depois a tia Betty tinha falecido. Os meus pais foram a Itália, ao funeral, e depois acabaram por passar lá uns tempos, assim foi porque a Maria convidou-me para ir morar com ela. Eu adorei. Pela primeira vez achara os meus pais os melhores do mundo. Mas graças à Maria, claro.

Passou-se um ano. Eu estava completamente dependente da Maria e, no fundo, ela de mim. O sorriso da Maria era contagiante. Em tantos anos de convivência com a Maria, nunca a tinha visto chorar, mas, nestes últimos meses, ela andava mal, algo a preocupava, e eu sabia. Mas, nunca falámos muito sobre isso, as poucas vezes que tocávamos no assunto ela desviava sempre o olhar e começara a falar noutra coisa, e eu não insistia, nunca percebi o porquê, mas eu também andava muito cansada e triste porque o Guilherme não me ligava nenhuma.

Lembro-me tão bem. Foi numa quinta-feira de manhã. A Maria acordou primeiro que eu e disse-me: “preciso falar contigo. Por favor, ouve-me…” disse isso com um tom melancólico, deprimido e completamente desesperado. E eu dormia, ou fingia que dormia para não ter que acordar às 8h da manhã, num domingo de chuva.
Ela veio ter comigo e deu-me um beijo na testa. Olhou-me e deixou cair uma lágrima que me tocou no rosto.
Saiu, deixando a porta entreaberta.
Acordei eram 11h13 minutos. Senti a ausência da Maria. Espreguicei-me. Permaneci deitada ainda uns bons quinze minutos. Chamei pela Maria, mas nada. Levantei-me.
Percorri a casa, a pequena e airosa casa e a Maria não estava. Voltei ao quarto: uma carta. De repente ocorreu-me mil e uma imagens, das mais desagradáveis que pudessem haver. Tive medo, tive muito medo de a abrir. Lentamente desdobrei a carta, que dizia assim:
« Um dia, quando acordamos e nos apercebemos que há muito que não sonhamos, então aí, já não faz mais sentido viver.
Querida Marta,
Nunca fui feliz como sempre quis demonstrar que o era; sempre sorri para não ter que chorar. Mas hoje, ao querer falar contigo e tu continuares nesse sono profundo, senti-me tão só que nem imaginas. Chorei muito, muito mesmo, mas tu dormias, não ouviste.
Bolas, estou farta de sofrer escondida, sozinha, de sofrer neste cubículo só meu, de sofrer e de ninguém entender. FARTA!
Chama-me doida, doente, o que quiseres mas eu estou mesmo farta disto tudo. Com ou sem motivos, assim termino este meu sofrimento.
Um beijo e um até sempre,
Desta tua sempre – fracassada – amiga.
Desculpa-me… »


A carta estava cheia de erros e a letra estava quase ilegível.
A Maria tinha-se suicidado. Naquele momento parecera que eu morrera também.
Incrivelmente não chorei. Apenas, uma incontrolável dor ia-me destruindo por dentro. E a culpa era minha.
Os pais da Maria , que sempre demonstraram pouco afecto e dedicação por ela – que eu na altura sempre julgara isso como sendo das melhores coisas que pudessem acontecer – puseram-me um “processo em cima”: dizendo que eu era a culpada do sucedido. Claro que o tribunal não me atribuiu qualquer tipo de pena. Mas, se eu perante a lei nada de mal tinha feito perante os meus sentimentos eu era a pior das criminosas.
Eu tinha 17 anos, e por só pensar em dormir tinha perdido para sempre a Maria.

Hoje, passados dez anos – a Maria teria 29 anos – tenho uma filha linda, uma filha que se chama, também, Maria. A minha filha é tão ou mais bonita que a minha eterna amiga e têm as duas o mesmo sorriso. Podem ser muito parecidas mas vão ter destinos muito diferentes.

Para ti, minha amiga Maria,
gosto e vou gostar sempre muito de ti
e hoje sou eu que digo: desculpa-me…

41 à janela:

At 15/2/05 9:24 da tarde, Blogger MONALISA disse:

Apesar de o texto estar muito bem escrito e ser muito triste, eu vou comentá-lo a rir e tu sabes porquê....preciuso de ferro para o cérebro. Beijo

 
At 16/2/05 12:06 da manhã, Blogger rita disse:

queria deixar-te uma msg-mimo.
mas as palavras fugiram...
um beijo doce pra tua Maria.
e pra ti um xi. apertadinho.

 
At 16/2/05 9:08 da tarde, Blogger AmigaTeatro disse:

Lisa, loool
eu sei bem porque te ris, não andas a tomar os comprimidos todos e depois dá nisso, LOl
kiss*

Ursinha,
antes de mais agradeço a visita;
um dia, quando eu tiver a minha "Maria" ela agradecerá esse beijo hehe looooooool ;)
Volta sempre :)*

 
At 16/2/05 9:13 da tarde, Blogger Pêndulo disse:

E ela como suplício para apagar a culpa decidiu dizer:
"OK Teleseguro, daqui fala a Marta" dezenas de vezes ao dia.
Hoje é uma telefonista feliz, de carreira sólida e invejada pelas colegas de trabalho e sonha um dia ser a voz das chamadas em espera da empresa.

 
At 16/2/05 11:54 da tarde, Blogger Bastet disse:

Na retribuição da visita fui agarrada por este post. Fiquei indecisa entre as lágrimas do post e os risos dos comentários e se a minha razão me diz para rir o meu instinto (de gata bastet) aconselha-me a não ser precipitada! Mas, e o mais importante repete-se, fiquei agarrada! :)

 
At 17/2/05 12:27 da tarde, Anonymous Menina_marota disse:

Li este texto com a tristeza de quem já perdeu também uma grande Amiga... Beijo e um :-)

 
At 18/2/05 2:12 da manhã, Anonymous Anónimo disse:

Bonito o teu texto, tão nostálgico...Já tinha vindo ao teu blog mas só hoje consegui comentar. Uma boa sexta-feira para ti.

Dora
www.blogs.sapo.pt

 
At 18/2/05 10:39 da manhã, Blogger lena disse:

ainda acabas a fazer best-sellers como a outra, pá! :D

tb fiquei agarrada 8)

a menina anda com uma imaginação um nadinha mórbida, não? veja lá se quer levar uma palmada! =)



;)*

 
At 18/2/05 3:30 da tarde, Anonymous fairy_morgaine disse:

plos comentários depreendo que esta estória não é verdadeira mas devo-te dizer que é linda.

 
At 18/2/05 4:17 da tarde, Blogger Joao disse:

Também fiquei com a ideia, pelos comentários, de que a estória não é real. No entanto, é um texto muito bonito, noto muita sensibilidade na forma como escreves...

 
At 18/2/05 4:45 da tarde, Blogger AmigaTeatro disse:

Pêndulo :s ://
tu às vezes és estranho... muito estranho LOl ;P

bastet :)
E eu agradeço, também ;)

menina marota,
...
...
beijo*


Dora, obrigada... =)


Laurinha,
eu?? Óuó LOl

imaginação mórbida? eu? ora, é a imaginação do momento... ://
e não a 'tou a imaginar a dar uma palmada à minha pessoa, hehe

Beijinho**

fairy_morgaine,
felizmente não é verdadeira, não :)

João,
obrigada pela visita e pelas palavras,
volta sempre :)

 
At 18/2/05 8:58 da tarde, Blogger Yardbird disse:

Um relato extremamente tocante, cheio de emoção. Gostei muito :-) Beijinho

 
At 18/2/05 10:55 da tarde, Blogger dinorah disse:

Bolas, linda! ainda ia a meio e já estava com os olhos completamente vidrados na tua escrita... Cai como uma pata! Ainda mais, tive uma pessoa que tentou fazer o mm à sua vida... Ainda bem que foi mal sucedida, ao contário da tua história!
Até fez lembrar o dia em que o locutor de rádio lia o livro e o "povo" pensou que a Terra estava a ser invadida por ET's!! muito criativa!
bj

 
At 18/2/05 11:30 da tarde, Blogger Xinha disse:

Queria dizer qualquer coisa que te pudesse fazer sentir melhor... mas não consigo!
Só posso dizer que de certeza que a tua Maria não vai ter o mesmo destino, porque dá para notar que a mãe a ama! :)

Xinhos de carinho

 
At 19/2/05 12:20 da manhã, Blogger lique disse:

Olha, o mérito do teu texto é ainda maior se não é baseado numa história verdadeira. Porque está escrito como se fosse. Com uma veracidade e sensibilidade incríveis! Beijinho, Sara.

 
At 19/2/05 1:09 da manhã, Blogger BlueShell disse:

Triste mas tão bonito...BShell

 
At 19/2/05 9:40 da tarde, Blogger Micas disse:

Se bem conheço a minha amiga Monalisa, só posso entender que este texto é pura imaginação! Se é, dou-te o meu maior aplauso, está excelente. Beijos

 
At 19/2/05 10:48 da tarde, Blogger AmigaTeatro disse:

Yardbird,
ainda bem que gostaste...
obrigada :)*

dinorah,
ET's? hehe
;)

xinha,
felizmente que nesta vida ainda podemos distinguir duas coisas: a realidade e o imaginário, e é bom jogarmos com estas duas coisas...
:)

lique,
agradeço muito :$
jinho

BShell,
Normalmente as coisas mais tristes conseguem ser as mais tocantes...
:)*

micas,
pois é ;P
bigada =))*

 
At 20/2/05 12:17 da manhã, Anonymous O Cavaleiro disse:

Hoje, passo muito rapidamente para agradecer visita/comentário. Voltarei, continue passando lá! Beijo!

 
At 20/2/05 6:06 da tarde, Blogger João Mãos de Tesoura disse:

No próximo conto ressuscita-a ... e ficas perdoada! :)
Quero ver um texto alegre já, cheio de sorrisos e com um final kitch!
Beijos,

João

 
At 20/2/05 7:44 da tarde, Blogger barbaciliano disse:

Existem imensas Marias pelo mundo fora mas algumas ocupam um lugar especial dentro de nós :)

Beijinho grande

 
At 20/2/05 11:56 da tarde, Blogger AmigaTeatro disse:

O cavaleiro ;)

Ó tesouras, pá...
vou pensar no teu caso, hehe
vamos lá ver se amanhã ponho uma coisa mais ...hmm... mais cor-de-rosa ou assim... hmm ;P*

luisa,
:)**

 
At 21/2/05 12:22 da manhã, Anonymous Anónimo disse:

bom texto. bonitos sentimentos. sem melaço. simples. bom. um abraço. e ainda bem que não passa de um texto. abraço.
wilson t

 
At 21/2/05 1:17 da manhã, Blogger r.e. disse:

também gostei do texto, mas não me atrevi a comentar enquanto não desfiz as dúvidas sobre o seu carácter ficcional. podia ser uma partilha pessoal que não me atreveria a comentar, pois não tenho, felizmente, uma experiência de uma situação semelhante para poder ajudar. Mas sendo ficcional, atrevo-me a dizer que gostei muito de ler. Beijinho, e obrigado pelas tuas visitas também na minha madrugada. gosto muito de te receber por lá. Beijinho. J.

 
At 21/2/05 1:28 da tarde, Anonymous Menina_marota disse:

Passei para ler-te...

Deixo-te um abraço :-)

 
At 21/2/05 3:31 da tarde, Blogger Angel disse:

O texto é triste mas ao mesmo tempo muito bonito..
Todos nós perdemos alguém muito querido..
e agora basta que tu vejas na tua filha todo o ar da Maria e a recordes com o maior sorriso.. pk é assim que ela te quer ver, com um sorriso!
Não sintas a culpa...
Bjos

 
At 21/2/05 6:20 da tarde, Blogger Vera Cymbron disse:

Que texto maravilhoso! Ainda bem que não é verdadeiro...dava um livro magnifico!
Jinhos

 
At 21/2/05 11:04 da tarde, Blogger AmigaTeatro disse:

wilson ;)
Obrigada.

r.e.
lá passarei, sempre que puder ;)

menina-marota,
a ver se amanhã actualizo isto...
:) mas agradeço a visita =))

life_angel ;)*

Blue,
Oh, que exagero blue… lol
Beijo :)

 
At 22/2/05 5:23 da tarde, Blogger D disse:

desde ja agradeco a passagem pelo meu cantinho e dizer.te que es sempre bemn vinda (:
a morte.. que misterio tao dificil de descodificar!que dor tao intensa completamente impossivel de descrever.. emocionei-me bastante com a tua historia, e quero te dar uma palavrinha de esperança, nem tudo o que parece é, e por vezes as pessoas que nos parecem mais felizes sao as que estao completamente em baixo por dentro,so que nao o dao a parecer. A tua amiga onde quer que esteja vai te sempre recordar com uma lagrima de saudade e um sorriso no coração :_) 1bju grnde e um abraco por esse momento dificil, eu nao teria forças para aguentar o que aguentaste.*****

 
At 22/2/05 9:41 da tarde, Blogger Bandido ORiGInAl disse:

Tens o meu apoio, embora não tenha conhecido a Maria.

Convido V. Exas a visitar a Embaixada de Zurugoa, para espairecer...

zurugoa.blogspot.com

Salut

 
At 22/2/05 9:50 da tarde, Blogger BlueShell disse:

Voltei...para agradecer a tua visita e as tuas palavras. Jinho , Bshell

 
At 22/2/05 10:10 da tarde, Anonymous leonor disse:

Sabes que eu ia já dizer que tinhas precisado de alguma coragem para publicar este texto... quando... de repente me deu para ler primeiro os comentários. Por natureza eu sou uma believer nata mas a tua é escrita é por demais convincente.

 
At 22/2/05 10:39 da tarde, Blogger musqueteira disse:

Nada é triste quando de perto tivemos ao nosso lado quem sofre!Sofre...Ou sofreu.
Ou sofrerá, ou nós ainda, seremos mais fortes para encarar o sofrimento,dos outros!...De nós.De todos, sempre a sorrir.
:)Vi um comentário seu no meu Blog, e vim até aqui.Vou ficar...Atenta,a um texto chamado Maria!

 
At 22/2/05 10:46 da tarde, Blogger AmigaTeatro disse:

Daniela,
agradeço, também, a visita e o comentário, mas em relação ao post, não passa duma simples história ;)

Bandido ORiGInAl,
aqui só entre nós: eu também não conheci a Maria.
LOL

Bshell,
eu estou lá sempre que for necessário ;)*

Leonor,
agradeço... :)
Volta sempre.

musqueteira,
Obrigada pelo comentário e volte sempre ;)

 
At 23/2/05 2:37 da manhã, Anonymous O Cavaleiro disse:

Passando para deixar-te o BEIJO de quarta!!!

 
At 23/2/05 5:25 da tarde, Blogger peciscas disse:

Este texto trágico. vem lembrar-nos como, por vezes, queremos carregar connosco culpas que não são nossas!

 
At 23/2/05 6:58 da tarde, Blogger D disse:

nao era?? aiaiai k vergonha.. hehhee
mas é so pra veres como a menina escreve mesmo bem,pois a sua escrita e convincente e transporta-nos para os teus "pensamntos"
sendo assim..resta-me desjr uma boa noite e que edites um livro com historias assim tuas.. ias ter sucesso garanto;) beijos***

 
At 23/2/05 7:01 da tarde, Blogger AmigaTeatro disse:

Cavaleiro =))*

ajcm,
mas quando alguém nos é importante é dificil não pensar que podiamos ter feito algo, ter feito mais... na amizade e no amor nunca nada é demais... ;)

Daniela,
;P
Um livro? loooooool
um dia quem sabe, quem sabe... :D*
(e comentaste ao mesmo tempo que eu postei "engano" ;)

 
At 24/2/05 9:34 da tarde, Blogger Estrela do mar disse:

...este texto...além de muito bem escrito...mexe com sentimentos dos quais não abdico...e por isso só de pensar...

Um beijinho*.

 
At 25/2/05 3:44 da tarde, Blogger AmigaTeatro disse:

Estrelita,
agradeço =))*

 
At 3/3/05 7:16 da tarde, Anonymous Paulo Ribeiro disse:

Vim aqui parar e este texto chamou-me a atenção.

Não consigo ficar indiferente. No fundo abandonaste aquela que dizias ser a tua melhor amiga quando ela mais precisava de ti...

 

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